Como se calcula Saldo das operações de crédito
Matéria didática: as cinco perguntas que explicam esse número e as pegadinhas da série.
O que é
O saldo das operações de crédito é o total de dinheiro que o sistema financeiro brasileiro (bancos, cooperativas, financeiras, BNDES e as outras instituições autorizadas pelo Banco Central) tem emprestado hoje para pessoas e empresas. Não é "quanto foi emprestado este mês": é o estoque de empréstimos ativos no último dia do mês — tudo que ainda falta receber de volta, somando desde o cheque especial que alguém estourou ontem até o financiamento de 30 anos assinado em 2010. É publicado todo mês pelo Banco Central, nas Estatísticas Monetárias e de Crédito, cerca de 25 dias depois do fim do mês de referência. A unidade é R$ milhões.
Como é calculado
O Banco Central soma, para cada instituição regulada, o saldo contábil das carteiras de crédito no último dia do mês, e consolida pelo país inteiro. Entram aí todos os tipos de empréstimo para pessoas físicas (cartão de crédito rotativo, cheque especial, crédito pessoal, consignado, financiamento de veículo, imobiliário) e para pessoas jurídicas (capital de giro, antecipação de recebíveis, financiamento de investimento, operações com recursos do BNDES). Entram tanto as operações com recursos livres — em que o banco empresta a juros de mercado — quanto as com recursos direcionados, como crédito rural, imobiliário via SBPE e BNDES, cujas taxas são definidas por regulamentação.
Ficam de fora as dívidas que empresas e pessoas têm umas com as outras sem passar por banco (duplicatas, cheques pré-datados, "fiado"), os títulos emitidos no mercado de capitais (debêntures, CRI, CRA, notas promissórias) e o crédito tomado por brasileiros em bancos no exterior. É o estoque doméstico e bancário, não o total de endividamento da economia.
O número é nominal em reais — não desconta a InflaçãoAlta generalizada e persistente dos preços, que faz o dinheiro comprar menos com o tempo. No Brasil, a medida oficial é o IPCA, do IBGE.Ler o verbete completo do período nem o crescimento do PIB. Para comparar com o tamanho da economia o Banco Central também publica a razão "crédito/PIB"; na página do BRradar, dá para olhar como o estoque evolui frente à inflação aplicando a transformação de variação anual.
O que significa
É um termômetro de confiança e atividade. Quando a economia vai bem, bancos emprestam mais e famílias e empresas aceitam tomar emprestado — para consumir, investir, abrir uma loja — e o saldo sobe. Quando a inadimplência avança ou o custo do crédito encarece, tipicamente depois de uma alta da Selic, os bancos ficam seletivos e o tomador adia planos: o saldo desacelera e pode até cair em termos reais.
Não há uma faixa universal de "bom" ou "ruim". O que o mercado observa é a velocidade do estoque (variação em 12 meses comparada com a inflação do mesmo período) e a composição: quanto é rotativo caro, quanto é imobiliário longo, quanto é PF e quanto é PJ. No Brasil, o saldo total está na casa dos trilhões de reais e vem crescendo tipicamente acima da inflação; a razão crédito/PIB, no entanto, continua modesta para padrões internacionais, bem menor que a de muitos países desenvolvidos.
Pegadinhas
- Estoque é diferente de concessão. O saldo é o que ainda está devido no fim do mês. A "concessão" de crédito é o quanto foi emprestado novo no mês — divulgada em outra série do Banco Central. O estoque muda devagar; a concessão oscila muito mais.
- Nominal, não real. O número é em reais correntes. Em país com inflação relevante, um estoque que "cresceu 10 % em 12 meses" pode estar praticamente parado em termos reais se o IPCA e INPCOs dois índices de inflação ao consumidor do IBGE: o IPCA mede o custo de vida das famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos; o INPC, de 1 a 5.Ler o verbete completo do período estiver em 9 %.
- Recursos livres e direcionados contam juntos. Agregar os dois esconde histórias diferentes: o crédito direcionado (imobiliário, rural, BNDES) tende a crescer mais devagar e com juros abaixo do mercado; o livre reage rápido à Selic. O Banco Central publica cada bloco em separado para quem quiser destrinchar.
- PF e PJ no mesmo balde. Pessoas físicas e jurídicas são somadas aqui, mas se comportam diferente. Em recessão, costuma ser o crédito PJ que sofre primeiro; o PF demora mais a reagir, puxado pelo consignado, que é descontado em folha e tem risco baixo.
- Por estado vem de outra base. O BRradar mostra o saldo por UF a partir do SCR.data do Banco Central, que cobre as operações acima de R$ 200 informadas ao Sistema de Informações de Crédito. Esse valor é atribuído ao estado onde mora a pessoa física ou onde fica a sede da empresa, o que concentra o crédito das empresas em São Paulo e no Distrito Federal, onde estão as matrizes. A soma dos estados pelo SCR.data fica alguns por cento acima do número nacional desta página, porque a cobertura e a forma de compilar são outras.
- Revisões. A cada divulgação, o Banco Central revisa os meses recentes à medida que mais instituições fecham o balanço do período; a série sempre carrega o valor mais recente da fonte.