Como se calcula Endividamento das famílias
Matéria didática: as cinco perguntas que explicam esse número e as pegadinhas da série.
O que é
É o quanto, em média, as famílias brasileiras devem para bancos e financeiras em relação à renda que receberam nos últimos doze meses. Mede o estoque total de dívida das pessoas físicas no Sistema Financeiro Nacional (SFN) dividido pela renda acumulada em 12 meses daquelas mesmas famílias. É publicado uma vez por mês pelo Banco Central do Brasil, dentro das Estatísticas Monetárias e de Crédito, com cerca de dois meses de defasagem em relação ao mês de referência. A unidade é % da renda e quanto menor, melhor.
Como é calculado
O numerador é o saldo de todas as operações de crédito das pessoas físicas no sistema financeiro no mês de referência: financiamento imobiliário, financiamento de veículo, crédito pessoal, cartão de crédito, cheque especial, consignado, crédito rural, microcrédito. O número vem do Sistema de Informações de Crédito do próprio BCB (SCR), para o qual todas as instituições financeiras reportam suas operações todo mês.
O denominador é a massa de rendimentos das famílias acumulada nos últimos doze meses, estimada pelo BCB a partir dos dados de rendimento do trabalho da PNAD ContínuaPesquisa do IBGE que visita domicílios em todo o país para medir trabalho e renda. É dela que sai a taxa de desemprego oficial do Brasil.Ler o verbete completo (IBGE), complementada por outras fontes (benefícios previdenciários, programas de transferência de renda). A conta é:
> endividamento = saldo de dívida das famílias ÷ renda das famílias nos últimos 12 meses
O resultado é um percentual: por exemplo, 50 % quer dizer que o estoque de dívida das famílias equivale a seis meses da renda recebida no ano. Como o numerador é um estoque (fotografia no dia 30 do mês) e o denominador é um fluxo de doze meses, o número não é "um ano da renda" — é a comparação entre quanto se deve agora e quanto se recebeu no ano todo.
A série é mensal, começa em janeiro de 2005, não é ajustada sazonalmente e no catálogo vem do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do BCB (SGS, código 29037). O BCB publica também variantes que ajudam a separar o efeito do crédito longo: endividamento sem o financiamento imobiliário e endividamento só com crédito livre (fora o direcionado).
O que significa
É o termômetro de quanto do bolso das famílias já está comprometido com dívida. Quando sobe, dois movimentos podem estar acontecendo ao mesmo tempo: mais famílias tomando crédito (sinal de confiança no futuro ou de aperto para fechar o mês) ou renda crescendo mais devagar que o estoque de dívida.
No contexto brasileiro, o endividamento saiu de cerca de 20 % da renda em meados dos anos 2000 e passou a crescer rápido depois da chegada do crédito consignado, do financiamento de veículo acessível e, mais tarde, do crédito imobiliário em escala. Hoje gira em torno de meio ano de renda: valor alto para a conta histórica brasileira, mas baixo para padrões de países ricos (nos Estados Unidos a dívida das famílias passa de 100 % da renda, pelo peso enorme da hipoteca). Um número alto não é, por si só, catástrofe: depende da composição (se é imobiliário de 30 anos ou cartão rotativo de 30 dias) e da taxa de juros vigente, que define o quanto esse estoque custa por mês para a família.
Para enxergar o risco imediato de inadimplência, o complemento é o comprometimento de renda, que mostra quanto da renda mensal vai para pagar parcela de dívida (serviço da dívida), e não o estoque acumulado.
Pegadinhas
- Endividamento × comprometimento de renda. Endividamento compara estoque de dívida com renda acumulada; comprometimento compara parcela mensal com renda mensal. Uma família pode ter endividamento alto (dívida grande) e comprometimento baixo (parcelas pequenas, prazo longo) — e vice-versa. São duas histórias diferentes.
- Com × sem imobiliário. O financiamento imobiliário é dívida grande, longa e com juros relativamente baixos — infla o endividamento sem representar risco imediato. O BCB publica a versão com e sem crédito habitacional; esta série é a com. Em comparações internacionais vale olhar as duas, porque nem todo país inclui hipoteca da mesma forma.
- Só o Sistema Financeiro Nacional. Dívida no cartão da loja (crediário fora do SFN), fiado no mercado, boletos atrasados de luz e telefone, agiota, empréstimo com amigo e dívida com a Receita não entram. A dívida real de uma família costuma ser maior que a desta série.
- Nominal, mas a inflação se cancela. Tanto o numerador quanto o denominador estão em reais correntes, então não é preciso descontar InflaçãoAlta generalizada e persistente dos preços, que faz o dinheiro comprar menos com o tempo. No Brasil, a medida oficial é o IPCA, do IBGE.Ler o verbete completo: ela aparece dos dois lados da divisão e se neutraliza.
- Inclui dívida boa e dívida ruim. O numerador soma todo o saldo, inclusive operações em dia e operações já em atraso. Para separar, há a série de inadimplencia.
- Revisão. O BCB pode revisar meses anteriores quando o IBGE atualiza a PNAD Contínua (que entra no denominador) ou quando instituições corrigem informações no SCR. A série sempre reflete o valor mais recente da fonte.
- Alta não é sempre ruim. Em período de crédito barato e emprego formal crescendo, as famílias podem aumentar o endividamento para comprar imóvel ou veículo — é expansão de consumo, não aperto financeiro. O que preocupa é a combinação endividamento alto + comprometimento alto + juros subindo + emprego piorando.