Como se calcula Expectativa de vida ao nascer
Matéria didática: as cinco perguntas que explicam esse número e as pegadinhas da série.
O que é
É quantos anos um bebê nascido hoje viveria, em média, se as taxas de mortalidade por idade observadas no ano se mantivessem até o fim da vida dele. Não é uma previsão do futuro — é um retrato do presente traduzido em anos. É publicada pelo Banco Mundial (indicador SP.DYN.LE00.IN do WDI, que por sua vez compila a estimativa do IBGE e das Nações Unidas), uma vez por ano, com cerca de dois anos de defasagem. A unidade é anos. No Brasil, em 2024, ficou em torno de 76 anos (homens e mulheres juntos).
Como é calculado
A conta sai de uma tábua de mortalidade do ano: para cada faixa de idade (0, 1-4, 5-9, …, 80-84, 85+) o estatístico mede a probabilidade de uma pessoa daquela idade morrer antes de completar a próxima. Em cima dessas probabilidades monta-se uma coorte fictícia de 100 mil recém-nascidos e deixa-se ela "envelhecer" aplicando as mesmas taxas até o último sobrevivente morrer. A soma dos anos vividos pela coorte, dividida por 100 mil, é a expectativa de vida ao nascer daquele ano.
No Brasil o IBGE calcula a tábua a partir dos registros civis (nascimentos e óbitos) e dos dados do Censo e das projeções intercensitárias; o Banco Mundial repassa esse número no WDI. Entram todos os óbitos registrados no ano, de qualquer causa; não entram efeitos que ainda não aconteceram (um bebê nascido em 2024 que viva uma pandemia em 2050 vai desviar da previsão — a tábua não antecipa isso). O número publicado é a média de homens e mulheres; as expectativas separadas por sexo diferem em torno de 7 anos no Brasil (mulheres vivem mais).
O que significa
É o indicador-síntese de saúde pública de um país. Ganhar um ano de expectativa de vida leva décadas e costuma vir de quedas simultâneas da mortalidade infantil, das mortes por doenças infecciosas, dos homicídios e dos acidentes de trânsito. Países ricos (OCDE, União Europeia) estão perto de 80-83 anos; o Brasil está perto da média da América Latina; alguns países da África subsaariana estão abaixo de 65 anos. A direção mais alto é melhor: o número subiu no Brasil cerca de 25 anos entre a década de 1960 e hoje, principalmente por causa do saneamento e das vacinas.
Para pensar o número com cuidado: 76 anos ao nascer não quer dizer que todo mundo vai morrer aos 76. Significa que, na média da coorte, metade vive mais e metade vive menos. Quem já passou dos 60 tem uma expectativa de vida restante maior do que 16 anos (perto de 20), porque já sobreviveu aos riscos da infância e da juventude.
Pegadinhas
- Ao nascer × em outras idades. Esta série é a expectativa ao nascer. Existe também
e(60),e(80)etc. — a vida que ainda resta para quem já chegou naquela idade. Nos países ricos a expectativa ao nascer está empatando porque as crianças já quase não morrem; o que ainda sobe é ae(60). - Média × mediana. A expectativa é uma média da coorte fictícia; a idade modal de morte (idade em que mais gente morre) e a mediana são mais altas. Dizer "a expectativa é 76" não contradiz "o brasileiro típico morre perto dos 80".
- COVID. Em 2020 e 2021 a expectativa caiu em quase todos os países; no Brasil a queda foi de cerca de 2 anos. Em 2022-2024 recuperou-se, mas a série traz essa curva — não é erro.
- IDH / IDHM. A expectativa de vida é um dos três componentes do IDH e IDHMO IDH, do PNUD, compara países por saúde, educação e renda; o IDHM adapta a mesma ideia a municípios e estados brasileiros, com dados do IBGE. Os dois não são comparáveis.Ler o verbete completo (Índice de Desenvolvimento Humano) do PNUD; o IDHM do Atlas Brasil é a versão municipal. Não confunda: IDH e expectativa de vida são indicadores diferentes.
- Comparação internacional. O WDI soma homens e mulheres com peso igual, mas alguns países publicam só
e(0)masculina ou feminina. Compare sempre o mesmo recorte. - Revisões retroativas. Quando o IBGE atualiza as projeções populacionais, o Banco Mundial pode revisar os anos anteriores da série. A série reflete sempre o valor mais recente da fonte.