Como se calcula Inadimplência da carteira de crédito
Matéria didática: as cinco perguntas que explicam esse número e as pegadinhas da série.
O que é
É o percentual da carteira de crédito do sistema financeiro que está com atraso superior a 90 dias — o chamado "calote" no jargão da imprensa. Em outras palavras: de cada R$ 100 que os bancos emprestaram no Brasil (famílias e empresas somadas), quanto está parado há mais de três meses sem pagamento em dia. O número é publicado pelo Banco Central (BCB) todo mês, dentro das Estatísticas Monetárias e de Crédito, cerca de 25 dias depois do fim do mês de referência. A unidade é % da carteira total e a direção é "quanto menor, melhor".
Como é calculado
Os bancos, financeiras e cooperativas são obrigados a informar ao BCB, no Sistema de Informações de Crédito (SCR), cada operação de crédito acima de certo valor — hoje R$ 200 em diante. Para cada operação, informam o saldo que está em dia e o saldo que está atrasado por faixas de dias (até 14, 15–30, 31–60, 61–90, mais de 90). O BCB agrega tudo mês a mês e publica a razão:
> inadimplência = carteira com atraso > 90 dias ÷ carteira total × 100
Entram todas as modalidades de crédito livre e direcionado (cheque especial, cartão, crédito pessoal, financiamento de veículo, habitacional, capital de giro, BNDES etc.), tanto de pessoa física quanto de pessoa jurídica. Fica de fora o que já foi baixado como prejuízo (depois de 360 dias de atraso o banco é obrigado a tirar a operação do ativo — ela some do denominador e, daí em diante, não entra também no numerador). A régua de 90 dias segue o padrão internacional de crédito em curso anormal, que o Acordo da Basileia chama de non-performing loan.
O que significa
A inadimplência é um termômetro do estrago causado por crises e por juros altos: ela sobe quando a economia desacelera, o desemprego aumenta ou a Selic esticou demais o orçamento das famílias e das empresas. Historicamente, no Brasil, ela se move numa faixa estreita: em períodos calmos de crédito livre (famílias + empresas) o número fica perto de 3 % a 4 %; em recessões sobe para 5 % a 6 %; nas crises mais fortes passou de 7 %. Para pessoa física isolada, o número é maior — cartão rotativo e cheque especial puxam para cima; para pessoa jurídica costuma ser menor que o total. É pelo recorte por modalidade que o indicador fala mais alto.
Ela atrasa o ciclo: o CopomO Comitê de Política Monetária do Banco Central, que se reúne oito vezes por ano para decidir a meta da taxa Selic, o principal instrumento contra a inflação.Ler o verbete completo pode já ter começado a cortar a Selic enquanto a inadimplência ainda está subindo, porque o calote de hoje nasceu dos empréstimos tomados meses atrás. Por isso o BCB também olha a "inadimplência da safra" — o percentual de operações concedidas num mês que viraram atraso 12 meses depois — para enxergar a qualidade do crédito que está sendo tomado agora, não o estoque todo.
Pegadinhas
- Total × PF × PJ × livre × direcionado. Esta série é a inadimplência total. O BCB publica dezenas de recortes (crédito livre PF, livre PJ, direcionado, por modalidade). O número total dilui diferenças grandes entre eles.
- Inadimplência × endividamento. Inadimplência é o que não está sendo pago da dívida; endividamento é o tamanho da dívida em relação à renda. Dá para ter endividamento alto com inadimplência baixa — e vice-versa — a depender do juros e da renda.
- Nacional (SGS) × soma das UFs (SCR.data). O número nacional vem da série 21082 do SGS. O dado por estado, do indicador no BRradar, vem do SCR.data do próprio BCB, com uma base de compilação diferente: a soma dos 27 estados fica perto do nacional, mas não é igual.
- Baixa como prejuízo some do denominador. Depois de 360 dias de atraso, a operação deixa de contar nos dois lados da conta. Uma onda de calotes antigos sendo baixada pode fazer a inadimplência cair sem melhora real.
- Renegociação. Quando o banco renegocia uma operação em atraso, ela volta a contar como "em dia" (desde que o cliente pague a primeira parcela do acordo). Isso também pode mascarar deterioração temporária.
- Diferença de 25-30 dias. O número de "setembro" sai no fim de outubro. Em choques rápidos (pandemia, enchente, mudança de regra do cartão), a inadimplência pode ter já virado quando o dado é publicado.