Como se calcula Homicídios intencionais
Matéria didática: as cinco perguntas que explicam esse número e as pegadinhas da série.
O que é
A taxa de homicídios intencionais é o indicador que mede quantas pessoas são assassinadas por ano, no Brasil, a cada 100 mil habitantes. É o número mais usado para dizer se o país está mais ou menos violento. A série que o BRradar publica vem dos World Development Indicators do Banco Mundial, que por sua vez consolida os dados do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime). É divulgada uma vez por ano e, por depender de validação internacional, costuma sair com dois a três anos de defasagem — em outubro de 2026, o dado mais recente da série é de 2023.
Como é calculado
A fórmula é direta: a taxa é o número de homicídios intencionais ocorridos no ano dividido pela população estimada no meio do ano, multiplicado por 100 mil. Entra na conta apenas o homicídio intencional, ou seja, a morte provocada de propósito por outra pessoa — o que a lei brasileira chama de homicídio doloso (artigo 121 do Código Penal), feminicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte. Fica de fora o homicídio culposo (acidente), a morte em acidente de trânsito, o suicídio, as mortes decorrentes de intervenção legal registradas como tal e as "mortes a esclarecer" que nunca viram homicídio no cadastro.
A unidade é mortes por 100 mil habitantes e o período-base é o ano calendário. No Brasil, os dados primários vêm de duas fontes com naturezas diferentes: o SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde), que registra a causa da morte a partir do atestado de óbito, e as estatísticas das secretarias estaduais de segurança pública, consolidadas pelo SINESP e pelo Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O UNODC harmoniza esses números com os dos demais países para produzir uma série comparável; por isso o valor que aparece aqui pode diferir, em um ou dois décimos, do que o Atlas da Violência (IPEA e FBSP) publica e também das manchetes anuais da polícia.
O que significa
É o termômetro mais honesto da violência letal: quanto maior, pior. Como referência rápida, uma taxa abaixo de 3 por 100 mil é considerada baixa pelos padrões europeus; entre 3 e 10 é intermediária; acima de 10 é alta; acima de 20, muito alta. O Brasil historicamente oscila na faixa dos 20 a 30, com pico em meados dos anos 2010 e queda consistente desde 2017 na mesma série do Banco Mundial. Para dimensionar: entre as grandes economias do mundo, o país aparece há anos entre os de maior nível de homicídio por habitante, bem acima da média da América Latina e Caribe e dezenas de vezes acima da OCDE.
Também vale olhar o número absoluto junto com a taxa. Em um país em que a população cresce pouco, a taxa cair e o número absoluto cair significa que a violência está, de fato, diminuindo; a taxa cair só porque a população cresceu mais rápido do que o número de homicídios é uma melhora bem menor.
Pegadinhas
- Intencional ≠ todas as mortes violentas. O indicador trata só do homicídio doloso. As "mortes violentas intencionais" (MVI) do Anuário Brasileiro de Segurança Pública somam homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial — a conta fica maior do que a daqui.
- SIM × secretarias de segurança. O número do Ministério da Saúde (atestado de óbito) é quase sempre um pouco maior do que o das secretarias estaduais, porque inclui mortes classificadas depois pelo médico-legista e porque alguns estados reclassificam homicídio como "morte a esclarecer". Por isso o UNODC prefere o SIM como insumo para o Brasil.
- Revisão com defasagem. O ano fecha no cadastro do Ministério da Saúde ao longo dos 12 meses seguintes e o UNODC publica depois de mais uma rodada de validação. É comum o valor do último ano da série ser revisado nas publicações seguintes; a série aqui sempre carrega o número mais atual da fonte.
- Taxa × número absoluto. Comparar duas cidades só pela taxa pode esconder diferenças grandes de população; comparar só pelo número absoluto também engana. Olhe os dois.
- Atlas da Violência × WDI. O Atlas da Violência (IPEA e FBSP) publica uma série muito próxima mas com pequenas diferenças de método (tratamento de mortes a esclarecer, taxa de notificação). Para comparação com outros países, o padrão internacional é o do WDI/UNODC — por isso ele é a fonte primária aqui.
- Mudança de metodologia. O UNODC revisou a definição de homicídio intencional em 2015 (padrão ICCS, International Classification of Crime for Statistical Purposes). Séries publicadas antes dessa data podem ter pequenas quebras; a série do WDI já incorpora a revisão para trás.