Como se calcula Renda média — rendimento real habitual
Matéria didática: as cinco perguntas que explicam esse número e as pegadinhas da série.
O que é
É o rendimento mensal médio das pessoas ocupadas no Brasil — quanto um brasileiro trabalhador ganhou, em média, somando o que recebeu em todos os trabalhos que tinha. É publicado pelo IBGE a partir da mesma pesquisa do desemprego, a PNAD Contínua, geralmente até o fim do mês seguinte. A unidade é R$ por mês e a série é real: todos os valores estão a preços do último trimestre divulgado, para que dê para comparar meses distantes sem o efeito da InflaçãoAlta generalizada e persistente dos preços, que faz o dinheiro comprar menos com o tempo. No Brasil, a medida oficial é o IPCA, do IBGE.Ler o verbete completo.
Como é calculado
O IBGE visita cerca de 211 mil domicílios por trimestre e pergunta, para cada pessoa ocupada, quanto ela habitualmente recebe por mês em cada trabalho que tem. "Habitualmente" é um conceito importante: é o rendimento típico do trabalho, descontando bônus pontuais, horas extras não recorrentes e meses atípicos. Soma-se o rendimento de todos os trabalhos da pessoa, e tira-se a média aritmética entre as pessoas ocupadas com rendimento declarado:
> renda-media = soma dos rendimentos habituais ÷ número de ocupados com rendimento
Fica de fora quem não declarou rendimento e quem está ocupado mas não recebe (por exemplo, trabalhador familiar auxiliar sem remuneração). O número publicado nacionalmente é o trimestre móvel (média dos três meses anteriores), rotulado pelo mês final: o valor "de setembro" é a média de jul-ago-set. Por UF, o IBGE publica o trimestre civil, cerca de 45 dias depois do fim do trimestre.
Para transformar os valores nominais de cada mês em valores reais, o IBGE deflaciona a série inteira para os preços do trimestre mais recente, usando o IPCA e INPCOs dois índices de inflação ao consumidor do IBGE: o IPCA mede o custo de vida das famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos; o INPC, de 1 a 5.Ler o verbete completo. Como a cada divulgação o trimestre mais recente muda, toda a série é recalculada: um ponto de 2015 pode mudar de mês para mês, porque a base de preços é a mais recente, não a histórica.
O que significa
É a melhor leitura rápida de poder de compra do trabalhador brasileiro. Compare com o salário mínimo: a renda média costuma ficar algumas vezes acima dele — não porque "todo mundo ganha muito mais", mas porque a média é puxada pelos mais altos. A mediana (rendimento do trabalhador do meio) é bem menor e, para muitas análises, é a leitura mais honesta.
A direção é higher is better: mais renda média, no mesmo nível de inflação, significa mais poder de compra. Mas o número precisa ser lido junto com dois outros: a taxa de desemprego e a taxa de participação (as duas no mesmo boletim). Renda média pode subir porque o mercado está aquecido (bom), ou porque muita gente de baixa renda saiu da força de trabalho (ruim: a média sobe porque o fundo foi embora). Nos trimestres de reabertura após a pandemia houve justamente esse efeito.
Para comparação regional, há a versão por UF (trimestre civil): São Paulo e o Distrito Federal ficam bem acima da média nacional; Maranhão e Piauí, bem abaixo. As diferenças mudam pouco entre trimestres — é um indicador estrutural.
Pegadinhas
- Renda média × salário médio × massa de rendimento. A renda média é por pessoa ocupada, em todos os trabalhos, incluindo informais e autônomos. O "salário médio" costuma significar apenas trabalho formal (carteira assinada). A massa de rendimento é a renda média multiplicada pelo total de ocupados — mede o bolo que o mercado de trabalho gera, não a fatia de cada um.
- Habitual × efetivo. O IBGE publica os dois. Habitual é o rendimento típico, sem pontualidades. Efetivo é o que a pessoa de fato recebeu no mês da entrevista, com todos os bônus e descontos pontuais. Esta série é a habitual, que oscila menos.
- Real × nominal. Esta série é real (deflacionada). Comparar com salário mínimo nominal exige cuidado: o salário mínimo que você vê na mídia é nominal, e esta série está em reais do trimestre mais recente. Confira a legenda do gráfico.
- A série toda muda a cada divulgação. Como o IBGE redeflaciona a série inteira em cada publicação, um número antigo pode aparecer diferente do que você viu no mês passado. Não é erro nem revisão metodológica — é só a mudança da base de preços. No BRradar, cada publicação regrava a série inteira (
revision = "full"), para que a base de preços seja consistente em toda a série exibida. - Trimestre móvel × trimestre civil. O número nacional é mensal (trimestre móvel). O número por UF é trimestral (trimestre civil: jan-mar, abr-jun…). Não dá para comparar o mesmo mês entre os dois.
- Mudança de 2012. Antes de 2012 havia a PNAD anual e a PME (mensal, só seis metrópoles). A PNAD ContínuaPesquisa do IBGE que visita domicílios em todo o país para medir trabalho e renda. É dela que sai a taxa de desemprego oficial do Brasil.Ler o verbete completo as substituiu com cobertura nacional. Séries anteriores a 2012 não são comparáveis com esta.